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Segunda-feira, 21 de Janeiro de 2013

“Os cancros do século XXI são hormonais”

Plásticos, pesticidas, pílulas e produtos vegetais estão a contribuir para o aumento da prevalência de cancros hormonais no mundo inteiro. O alerta é feito por Manuel Sobrinho Simões, director do Instituto de Patologia e Imunologia Molecular da Universidade do Porto – o especialista esteve em Macau para participar no Fórum Médico Internacional Sino-Luso. Gostou do que viu na faculdade de Ciências da Saúde da MUST, mas deixa um aviso: “Não vale a pena competirem com Hong Kong”.

Inês Santinhos Gonçalves

- Antes de mais, que balanço faz deste fórum?

Manuel Sobrinho Simões – Eu era a única pessoa que vinha do lado da patologia humana e do diagnóstico de cancro, e o fórum foi muito mais sobre imunologia e transplante, grupos sanguíneos, a possibilidade de criar bancos para transplantes de órgãos e de células do cordão. Ouvi aqui quatro ou cinco dos melhores especialistas do mundo. Achei as conferências muitíssimo boas e aprendi muito. Vim cá falar sobre a possibilidade de se fazer um diagnóstico moderno, usando a patologia molecular. Acho que correu muito bem. Este fórum teve o mesmo nível científico que tem qualquer bom fórum europeu.

- O cancro é a principal causa de morte em Macau. O panorama no sul da China está a mudar?

M.S.S. – Não sei. Na China, trabalho na província de Henan e sei que há uma semelhança muito grande com Portugal no que diz respeito ao cancro do estômago. Nós temos muito e os chineses, nessa zona, também, em parte por causa da infecção pela bactéria ‘helicobacter pylori’. É uma bactéria que infecta o estômago. E depois, o que tenho visto lá muito mais do que em Portugal é cancro do esófago, porque fumam muito mais do que nós e bebem muito mais do que nós, e álcool de má qualidade.

- Qual o motivo para tantos casos de cancro do estômago?

M.S.S. – Subdesenvolvimento. Já não há na Europa civilizada.

- Está relacionado com a segurança alimentar?

M.S.S. – Está. E com a má higiene, a má conservação dos alimentos. A Finlândia, há 40 anos, tinha a mesma taxa [de cancro do estômago] que Portugal tem hoje e a diminuição da incidência foi proporcional ao Produto Interno Bruto. É o que chamamos um sucesso epidemiológico não programado: as pessoas enriqueceram, passaram a ter higiene, passaram a conservar bem os alimentos, passaram a dormir em quartos separados.

- Macau está agora a debater a lei de segurança alimentar. Esse tipo e legislação pode ter uma interferência directa na saúde?

M.S.S. – Pode, de duas maneiras. Primeiro, chama a atenção para o assunto – a alimentação e a respiração são dois factores externos com que estamos em contacto e são muito importantes. Segundo, na alimentação não há só o problema da qualidade, de os produtos estarem estragados. Isso é um problema, mas dá gastroenterites. Mas há o problema da quantidade de sal, da quantidade de fumados. Haver uma lei de segurança alimentar que seja utilizada, não de uma forma burocrática, mas de uma forma inteligente, vale a pena.

- Pegando no exemplo da Finlândia, é, então, expectável que a situação da China melhore, visto estar a crescer tanto.

M.S.S. – Seguramente. Mas, por exemplo, o Brasil não melhorou tanto como isso, apesar de estar mais rico. Está mais rico mas continua a ter uma quantidade enorme de pobres e muito pobres. A Finlândia teve um conhecimento harmónico. Um professor que esteve aqui na conferência veio-me dizer que estava muito interessado em trabalhar comigo. Ele é de Hebei, onde o cancro do estômago é o mais prevalente.

- Apesar de as condições de vida estarem, em geral, a melhorar, o número de casos de cancro tem vindo a aumentar. Porquê?

M.S.S. – Porque a maioria dos cancros não tem que ver com condições de vida mas com longevidade – as pessoas estão a ficar mais velhas. E depois há a questão do diagnóstico, que melhorou imenso, passámos a fazer muito mais diagnósticos. O número de cancros em todo o mundo está a aumentar. Na Europa, entre as pessoas da minha geração, uma em cada três tem cancro durante a vida – não quer dizer que morra de cancro. Em relação aos meus netos, que fazem de mim uma diferença de 40 anos, já se calcula que seja um em dois.

- Porque se fazem mais diagnósticos?

M.S.S. – Não, por causa da longevidade. O diagnóstico já não vai melhorar muito – deu um salto muito grande mas agora estabilizou. Mas o que aumentou imenso foi a longevidade. E passámos a tratar muito melhor. Por estranho que pareça, uma pessoa que tem um cancro tem muito mais probabilidade de ter um segundo e um terceiro. Portanto, a longevidade é maior e já não morrem como morriam.

- Há cancros do século XXI?

M.S.S. – Há. O seminoma do testículo, que subiu de forma impressionante. É um tumor que afecta rapazes novos. Achamos que é por causa da contaminação das águas, por hormonas e produtos semelhantes às hormonas. Os rapazes passaram também de sofrer de infertilidade, em todo o mundo ocidental. As raparigas passaram a ter a menarca [primeira menstruação] muito mais cedo – as nórdicas tinham aos 16 anos e agora têm como as africanas, aos 12, 13 anos. E aumentou também o cancro da mama.

- Isso tem tudo que ver com factores ambientais?

M.S.S. – Ambientais e hormonais. A pílula não é fácil de destruir, vai para as águas residuais. Há muitas substâncias que mimetizam o estrogénio: os plásticos, os pesticidas, a pílula, produtos vegetais – chamamos a isto disruptores endócrinos. Os cancros do século XXI são os cancros hormonais associados aos disruptores endócrinos. Os outros são os cancros dos velhinhos: são pequeninos e devem ser deixados sossegados. Se for fazer um raio-X bem feito aos 80 anos está cheio de cancros pequeninos.

- Os governos estão atentos a esse problema das substâncias hormonais?

M.S.S. – Os Estados Unidos estão a levar isso a sério, os países nórdicos também. Os países latinos estão-se nas tintas. A mim assusta-me que em Portugal não se tenham apercebido [do problema]. Por exemplo, no Porto, na barragem de Crestuma, onde estão as águas residuais, os peixes estão todos a mudar de sexo. Saem tantas hormonas que os peixes mudam de sexo. Ninguém pega nisto porque é muito difícil purificar [a água].

- Há casos de doentes oncológicos que chegam muito tarde ao médico porque optam primeiro pela medicina tradicional chinesa.

M.S.S. – Não há dúvida nenhuma que os doentes nos países subdesenvolvidos – e falo também de Portugal – chegam tarde demais ao médico. E é verdade que, se no percurso forem entretidos com coisas que não funcionam, é pior. Em relação à medicina tradicional chinesa, acho que há uma hipótese estupenda de ajudar na quimioprevenção. No tratamento, acho que não há forma de tratar cancro que não seja pela cirurgia, pela radioterapia e pela quimioterapia. Aquela ideia de ‘venceu o cancro porque tinha muita força’ é mentira. No entanto, a medicina tradicional chinesa tem potencialidades estupendas no domínio da prevenção e da literacia e educação para a saúde.

- Em locais como Macau, falta conjugação entre a medicina ocidental e chinesa?

M.S.S. – Claro. Devia haver muito mais. Não podem é substituir-se, elas são complementares, não são alternativas. Infelizmente a medicina ocidental não tem nada de preventiva, nós somos treinados para curar.

- Visitou a faculdade de Ciências da Saúde. Que caminho acha que Macau devia tomar nesta área?

M.S.S. – Achei muito interessante o modelo, com o hospital. Defendo muito que as ciências da saúde devem ter os três componentes: hospital, médicos e investigação. A faculdade tem modelos muito interessantes para treinar cirurgiões, enfermeiros, obstetras e médicos de medicina de urgência. Sou muito a favor da utilização de equipas multidisciplinares. A ideia de um médico que resolve tudo já acabou, o médico fica caríssimo e não resolve coisíssima nenhuma. Há imensas coisas muito mais bem feitas por técnicos ou enfermeiros ou assistentes sociais, e que ficam muito mais baratas. Por exemplo, acho que os partos devem ser feitos por parteiras – desde que sejam feitos em hospitais. Achei que esta faculdade de ciências da saúde faz uma ligação muito interessante com as outras profissões não-médicas, com os engenheiros. Isto pode constituir um nicho. Não vale a pena competirem com Hong Kong. Hong Kong é ‘first class’. Mas há complementaridades.

- Como funcionaria esse nicho?

M.S.S. – Treinando, por exemplo, pós-graduados. Já formados em medicina, ou enfermagem, ou fisioterapia, ou em próteses, ou em medicina dentária. Especializações com treino, com ‘hands on’, tendo os doentes ao lado. Mas não competindo nas coisas muito fundamentais, porque são caríssimas e são muito bem-feitas em Hong Kong.


Fonte: http://pontofinalmacau.wordpress.com/2013/01/21/os-cancros-do-seculo-xxi-sao-hormonais/
Postado por Isa às 16:10
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